quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A SAGA DE JOSÉ

E lá se vai José...

De cabeça fria nunca engrossa, vai devagar rumo a sua roça,
De onde tira seu sustento. Triste fica o coitado, só quando lembra que não é letrado.

E lá se vai José...

O caminho é longo, ardoso, nem quente nem frio,
É um caminho morno, sem muita definição, causa ou questão.

E lá se vai José...

Com cigarro de paia no bico, tragando o vicio pro tempo matar,
Levando sua cabaça dágua, junto a enchada, nunca deu no trabalho uma mancada.

E lá se vai José...

Com seu esforço garrido, José é home mais valente e valido,
por todo teritório que se procurar, baixinho e forte, ele mesmo diz que não deixa o Norte.

E lá se vai José...

Valido de suas proezas, não é dotado de muitas riquezas,
mas mesmo assim se diz rico, nas graças do bom Deus, que sem nos protejeu.

E lá se vai José...

Anda José, caminha por estes cantos que são teus, acorda que o dia já amanhaceu, e não se pode madrugar. Acorda pra acordar as crianças, e já pra ir trabalhar na bonaça.

E lá se vai José...

Por onde os caminhos não se define e o céu fica no chão, onde as balairinas são fulô encantando o ar, purificando os ouvidos cegos de tanta poeira, subindo e descendo ladeira nesse imenso mundo chamado sertão.

sábado, 19 de setembro de 2009

CORTINAS ABERTAS

Noite fria na fria Guaramiranga
Teatro inteiramente vazio, luzes acessas, cortinas abertas chão deitado quieto esperando os passos que não vem.
Alguém queira aplaudir por favor?!
As luzes por favor, queiram apagarem para que o espetáculo enfim possa começar.

CONDUÇÃO

Agora já de volta ao recinto
Respirando ares de decepção
Por causa da então palavra.
Se reclama / sinto
Brota da terra o chão
Flor rosa amargurada.

Um pé na calçada
Onde não se chega
Pra onde o onde não vai.
O pé na rua parada
A mão inteira
O olho agora traí.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

PALAVRAS DE POETA

....
Como sofrem as palavras de um poeta.
Sofre tanto quanto o próprio.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

CASINHA

Casinha...
Miudinha, pequenina nela ninguém mora,
Nela não se pode morar.

Casinha...
Miudinha, pequenina dona de ninguém
Não acredito que dono não tem.

Casinha...
Miudinha, pequenina quase não cresceu
Também não aprendeu.

Casinha...
Miudinha, pequenina esqueceu-se que era casa.
Coitadinha.

LIBERADADE AGUÇADA

Alguns centavos no bolso. Cigarro pra tragar e vários e vários passos a serem dados em busca de um caminho, buscando certo senhor de cabelos brancos e rosto desconhecido chamado destino. Muito mais que isso, um propósito pra vida já gasta, renascer, experimentar, acreditar, são todas palavras mágicas, fazem milagres.

Dessa formas passos são dados sem arrependimento sem nenhuma descrição / não se permitindo descanso ou água, sombra e sono. Basta a sede de se chegar algum lugar.

Curvas e ladeiras vencidas aos poucos / aos poucos se ganha distância, de pouco em pouco se ganha chão. Logo é agraciado com algumas regalias que se tem quando se experimenta a vida, bem como sentir no rosto ar aberto bater, ter visão expansiva, não ter ninguém por perto e se poder grita com toda vontade do mundo LIBERADADE, e saber que não se percorreu ainda nem a metade do trajeto.

ATO EM VERSO

Que sejam versos aqueles rabiscos na parede.

Rimado ou não.
Com ou sem colocação.

Fracionado
Quitado
Apregado
Esbagaçado
Verso.

ATÉ NÓS

Saudade não traduzida em palavras
Palavras apeladas em soluços
Não escuto.

O verbo rasgado em voz
O pão que alimenta a mesa
A mesa que não sustenta
Não sou mudo.

Adeus. E até nós.

CANTO CHUVA

A chuva cai. Alvoroçada.
Peço licença ao tempo só pra escutá-la.
Sinto-me bem ao contemplar o som de cada gota no toque da telha;
É doce a sinfonia que ela produz;
Harmonia, o corpo em progressão rápido descendo ladeira abaixo pra desaguar no rio.

A chuva se vai. Agora mais calma.
Não se acaba. Segue molhando caminhos.
Com toda a sua sonoridade e beleza e o fino desejo profundo de um dia se tornar rio.
Despeço-me sutilmente com um pequeno aceno e fico.
Também querendo ser rio pra mais tarde quem sabe se tornar chuva.

domingo, 13 de setembro de 2009

NEGO QUE TE QUERO

Te quero
Enquanto ao redor tudo se torna de forma minucioso e ridícula e impossível.

Te quero
E agora tenho medo receio de aceitar esse sentimento.

Te quero
E não aceito outro em meu lugar.

Te quero
Dar vergonha de dizer. Sinto nojo de mim. Me desprezo por isso.

Te quero
Não espero que um dia você me diga isso, nem eu esperava um dia dizer essas palavras.

DISTANTE

Os passos quando dado sozinho faz o ali se transformar em distante.

UM DOS SERTÃOS

Há um sertão
Desses milhares sertão
Que há,
Construído em fios
Tecido em letras
Dentro de cada um
Que ousou
Dentro dele
habitá.

sábado, 12 de setembro de 2009

FALE, TE DEIXO FALAR

Fale, te deixo falar
Só pelo o simples prazer de te ouvir.

De te gostar
De te sorrir
De te ser
De te perceber.

Fale, te deixo falar
Só pelo o simples prazer de te ouvir.

De não deixar que você perceba, enquanto te percebo.
Deixo tudo alusivo tentando não te prender.

Fale, te deixo falar
Bobagens, rio de quaisquer, rio muito mais do seu jeito enquanto fala.

Seu jeito tão natural
Minha risada mimada e forçada.
Eu solto largado vendo em uma conversa a chance de se tornar um prisioneiro da sua beleza.

Fale, te deixou falar
Em silêncio peço que suas falas sejam para sempre só minhas.

JEITINHO DE SE DÊS APROXIMAR

Quando pensar
Em querer
Se aproximar.
Eu já serei
Eu já estarei bem próximo.
E será sua a vez de se aproximar.

Na próxima vez
Que estiver próximo
E não me ver aproximar de ti.
Não terá vez.
Não seremos mais próximos.

VERA VINGANÇA

E quando mais tarde noites caírem sem sentido sobre planos fugindo da insanidade real dando a idade que não se tem vestindo roupas que não se pode comprar comprando o que não se quer esquecendo-se de tudo nu e cru alargando possibilidade pensamento e acariciando suas pernas, arrepiando os pelos do seu pescoço, te deixando irada.

Não tente retribuir de volta da mesma forma com as mesmas armas elas já são bastante conhecidas.
Invente suas próprias armas.
Crie. Inove forma de vingar-se, você é boa nisso quando não se faz de vítima.
Jogue pra fora de você, você mesma, faça esse enorme favor faça uma varredura, limpeza.
Jogue pra fora por sua janela tudo que não mais te satisfaz.
Só não se jogue.
A janela é muito alta.
A morte não paga nada não tem nenhuma graça, nem mesmo sua desgraça.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

MENTIRIA

Quem diria e dirá em nome de todos a verdade seja abduzida na palma de cada mão sacerdote ou cristão se desdizia na culpa da verdade, vestida de mentira ao banco sentasse seria.
A tão certa verdade em aperto se abrisse e em rima dizia:
- Sou omisso a e da verdade.
Todos se assustaram. Naquele dia, em que a verdade mentiu.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

MUITO PRAZER SOU O QUERER

Um querer acontece quase sem querer.
É muito mais do que apenas um, são dois, três e às vezes até milhares.
É rasteiro feito cobra, leve feito pluma e quase não se percebe.

Um querer é malicioso se leva sem se deixar levar.
É desconhecido, atrevido emotivo.
É miúdo, carinhoso e físico.
Não consegue passar um minuto sozinho.

Um querer é hospedeiro, livre, vive mudando de lugar.
Não atende por nome.
Não tem telefone, não tem face.
A uns ele agrada, a outros nem tanto.
Tem olhos, mas é através do cotidiano da vivência que ele passa a existir.